Como se festeja o São João em um Terreiro sem Forró?

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Isso é assunto batido e admito que já está até chato, mas ainda me espanta!

Mais um ano junino se desenha no calendário nordestino sob aquele clima típico da época que une toda uma região.

Mas, espera aí, clima típico?

Fora resíduos alimentares, farelos de milho e amendoim aqui e alhures, resta pouco, ou quase nada da festa mais gostosa do Nordeste brasileiro.

Nem a fogueira queima mais! Fogos de artifício? Esses estão quase criminalizados, mas aí tem justificativas, né?

Fato é que de São João mesmo só ficou o nome, no caso a marca, já que a festa virou um grande produto industrial… e só.

Esqueça o forró tradicional

Cadê a reunião no pé da serra, ouvindo pé de serra?

Esqueça. Agora são mega shows em espaços abertos, enormes e pronto.

Talvez o que tenha restado do eco da festa mais charmosa e aconchegante do Nordeste tenha sido a decoração: bandeirolas, fogueirinhas de mentira, símbolos rurais etc e tal.

Seja em Campina Grande, ou Caruaru, da Bahia ao Maranhão, fora focos isolados e cada vez mais remotos, a festa se renova, ou pior, se descaracteriza.

Nada de purismo, mas o que é São João sem forró?

Acha exagero?

Basta conferir a programação divulgada esta semana para o São João de Patos deste ano da graça, um dos mais tradicionais desta e outras galáxias matutas.

Em uma relação de nada menos que 20 astros, a maior cidade do sertão paraibano, avançou ainda mais no desprezo ao arrasta-pé.

Com muita boa vontade e zero filtro podemos enquadrar três, três míseras atrações no estilo forrozeiro.

Lá vai:

Calcinha Preta, Cicinho Lima, Xand Avião ?!?!?! e mais um lá…

-E tudo Forró de Plástico. Nem é forró, forróóóóó mesmo- indaga o radical.

Olha, nem vou entrar neste terreno pantanoso, mas que é o “origi”… né não, visse??

Mas, tudo bem, do jeito que a coisa vai, ter forró de plástico, o “das antigas”, com Leite, Aceso, de Pau tá valendo geral.

Antes de qualquer defesa de diversidade pelos moderninhos ecléticos, adianto logo que, ninguém em sã consciência (o que não é o caso deste narrador) idealiza em tempos modernos algum evento popular de rua sem os sertanejos e afins.

Eles já estão por aí e penetram esta e qualquer outra festividade Brasil afora.

Só faltou Alok na programação do São João de Patos. Só não tem forró de verdade.

 já podemos decretar o fim do forró “telengo tengo” no São João??

Outros moderninhos liberais já saem com a balela de quê a maior parte das festas (vide Campina, a própria Patos etc) são de organização da iniciativa privada agora, como se não coubesse a cidade pública o direito de fato e simbólico sobre tudo.

Podem vender, ceder, conceder, mas o São João, tal qual o carnaval, pertence ao povo, as localidades, não a meia dúzia de Promoções e Eventos LTDAs.

A questão, única questão é: já podemos decretar o fim do forró “telengo tengo” no São João??

Pode colocar os arrastadores de multidão, os sons das paradas, os agros e techs em geral, mas suprimir a maior, antes única referência sonora da Festa?

Há décadas o ritmo mais nordestino de todos já estava relegado, exclusivamente, ao período junino, retirado das prateleiras e dos alto falantes no restante de todo o ano…

Agora, querem solapar o forró, baião, xote e derivações diversas até da festa a que ele deu vida, cor, aroma e sentido?

Por que tratam o forró desse jeito?

Além deste genocídio cultural há outro vetor a se colocar em debate, sempre.

Qual a justificativa para destinar tamanha verba, aplicar tão vultosa quantia, despejar recursos públicos em uma festa assim sem valorizar o local?

Quando falo em relação a o que é local é em ambos os sentidos: o da identidade cultural e naturalidade geográfica.

São premissas básicas da missão da administração pública no âmbito cultural. Resgate, manutenção de tradições, valorização e propagação dos costumes…

Sem falar no fomento econômico a produções e artistas da “Terra”, fazendo circular dinheiro por ali, por aqui e estimulando um circuito musical forte local.

Mas, nestas horas, os “patriotas” de ocasião esquecem das tais raízes e abraçam o discurso hegemônico histórico: “é o que o povo quer, é o que o povo gosta… fazer o quê se não tem público?”

Eu ainda acho que “o forró daqui é melhor do que o seu”.

Marcos Thomaz

*Este espaço é opinativo. As ideias e conceitos neles contidos não representam o pensamento e linha editorial do site, mas refletem a opinião pessoal do autor

Imagens: Prefeitura de Patos

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