O que um juiz inglês, o censo e a Beyonce ‘baiana’ falam sobre o racismo

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De repente me deparo com a notícia de que um árbitro negro apitou uma partida de futebol na Premier League após 15 anos.

Mais de uma década sem um pretinho conduzindo qualquer jogo da maior competição nacional do esporte mais praticado do planeta.

Lá, na Grã Bretanha, onde o jogo começou, ganhou regras e no local onde se estabeleceu uma das maiores estruturas lucrativas de comércio escravista no mundo.

Sim, também foram eles uns dos maiores estimuladores ao fim do comércio humano, mas por outro interesse comercial.

Porque é sempre assim, o capital pelo capital, mas isso é outra história de “comunista”!

Voltando ao “black” em campo.

Sam Alisson foi o juiz a quebrar o tabu na Inglaterra no duelo de virtuais rebaixados entre Shefield United 2X3Lutton Town, ocorrido no tradicional boxing Day, a “rodada de Natal” da competição.

Esse hiato diz muito, bastante sobre a Premier League, o Reino Unido, a Europa, a sua ilha aqui entre os trópicos e o mundo.

Um único árbitro preto em 15 anos na competição onde negros brilham, são as estrelas em campo, valem e vendem bilhões em libras esterlinas.

Mas, é óbvio, do campo não se pode alijar, excluir o negro. A disputa ali é, quase eminentemente de talento nato.

Eles entregam o que o “Coliseu”, digo estádio pede: magia, brilho e festa.

Pão e Circo moderno e midiático.

Mas, além deste oásis no deserto, que representa o Sam Alisson, bem após a montanha de craques que desfilam nos verdes campos ingleses, onde estão os negros nos cargos diretivos da Premier League?

Técnicos? Dirigentes?

Aliás, tratando da parte que nos cabe neste latifúndio de bola, voltemos aquela pergunta máxima e perene…

Quantos técnicos negros temos atualmente nas duas principais divisões do futebol brasileiro?

Talvez nenhum!

Aqui onde mais negros desembarcaram a força para servir a tal idéia de desenvolvimento projetado pelo homem branco.

Quase 5 milhões de escravizados, boa parte trazidos pelos britânicos, que nos deram bola e miscigenação.

Aqui mesmo onde, vergonhosamente, por último se acabou a escravidão.

Aqui mesmo onde um negro nasceu para ser aclamado como atleta do século, o maior de todo e qualquer tempo.

Mas, cada preto precisa ser quase um Pelé, um extra-série para ter seu espaço.

Uma terra onde a olho nu todo mundo já sabia, mas apenas em 2023, se permite assumir que pretos e pardos são maioria.

Porque se camufla preconceito suavizando tintura na pele.

Gazos, mulatos, até retintos tentam embranquiçar socialmente para amenizar a dor de ser quase preto, portanto podre como dizem os mestres baianos.

Preto é moreninho, no exalar mais fétido do racismo entranhado, que já parte da consideração de que ser negro é alguma espécie de ofensa, portanto não se pode chamar alguém de tamanha blasfêmia.

É aqui, “onde o Brasil nasceu”, que uma cidade concentra a maior população negra fora da África.

Salvador, do Curuzu, da Liberdade, Ilê Ayê, onde a mega popstar Beyoncé, afro-americana, escolheu para lançar seu filme “Renaissance”.

Beyoncé, a diva pop mundial, mais uma negra em outro lugar que também foi permitido deixar “esse povo de cor” brilhar para entreter, agitar as massas, requebrar, também!

A pretitude serve quando seus símbolos culturais são apropriados.

Voltando a Boa Terra…

A mesma Baía de sincretismo, mas que no final, socialmente é mais de “todos os Santos” do que Todos os Orixás, pois no final onde estão os “negros no poder”, Adão Negro?

 

-E o ACM Neto?

Afrobege

Voltando ao futebol…

É ele mesmo, com a bola rolando que espelha o reflexo do racismo secular, milenar mundial.

A toda poderosa França, nunca, jamais seria tão portentosa não estivesse “enxertada” da quase totalidade de negros que envergam o manto “Les Bleus”.

Colonizados, filhos diretos de nações dizimadas, enfileirados, cantando a plenos pulmões a Marselhesa “que o sangue impuro banhe as nossas terras”.

O sangue dos seus ancestrais.

Aqueles franceses só aceitos como franceses quando brilham, elevam a bandeira francesa feita para franceses genuínos ao topo da glória.

Nos becos, calçadas parisienses aqueles egressos das colônias são apenas estorvo humanitário, lixo humano, quase uma peste a poluir e infectar as ruas da Cidade Luz e de um Iluminismo hoje apagado.

Mas tudo isso é “mi mi mi, somos todos iguais e racismo é coisa da sua cabeça, basta não dar atenção”!

*Este espaço é opinativo. As ideias e conceitos neles contidos não representam o pensamento e linha editorial do site, mas refletem a opinião pessoal do autor

Foto: Reprodução/Twitter/@FortalezaEC

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